É PRECISO CORAGEM…

Perfil

É preciso coragem para pensar diferente. É preciso coragem para agir diferente. É preciso coragem para ter personalidade, para ter e expressar opiniões próprias, que muitas vezes vão na contramão em relação à maioria das pessoas… Assim foi Maria Eugênia de Jesus, uma mulher de fé e de ação, que viveu no século XIX, mas que tem muitas coisas a nos dizer, a nós que já estamos no século XXI.

Diante de uma sociedade que via a Terra com um olhar negativo, ela teve a audácia de gritar “A Terra é um lugar de glória para Deus!”, antevendo uma natureza respeitada e a vida humana dignificada. Sentindo as diferenças sociais que cresciam e se tornavam cada vez mais injustas à medida que as indústrias se desenvolviam, ela percebeu que a sociedade precisava ser transformada, e disse: “Sonho com um estado social em que nenhuma pessoa humana tenha que sofrer a opressão de outra”. Vendo que a mulher tinha um  lugar muito secundário na sociedade em que vivia, ela lutou pela igualdade de oportunidades para as mulheres. Enfrentando o ateísmo muito forte em seu tempo, ela percebeu que o evangelho tem conseqüências sociais e afirmou que a fé e a luta têm que caminhar juntas: “Jesus Cristo, dizia ela, traz uma libertação que transforma a sociedade”.

Sim, assim foi Maria Eugênia, que aos 22 anos tornou-se fundadora de uma congregação religiosa, as Religiosas da Assunção – uma congregação com uma visão nova para o seu tempo, dedicada a uma forte vida de oração e a um intenso trabalho pelo Reino de Deus, ajudando as pessoas a desenvolver todas as suas capacidades, todas as suas potencialidades. “É uma loucura, dizia ela, não ser o que se é com o máximo de plenitude possível”.

Esta mulher foi santa. Ela teve a coragem de se fazer discípula, seguidora de Jesus. Muitas jovens se deixaram contagiar pelo seu entusiasmo e por sua coragem e, partilhando de seu mesmo sonho, juntaram-se a ela na nova congregação por ela fundada. Aos poucos, a Assunção foi crescendo e se espalhando em diversos continentes. Hoje, ela está presente em 34 países. As Religiosas da Assunção estão no Brasil desde 1911.

Em 1975, quando Maria Eugênia foi beatificada, isto é, proclamada como alguém cuja vida pode ser vista como exemplo, o então Papa Paulo VI lançou-nos um desafio: que, como Maria Eugênia, tivéssemos a audácia de fazer do evangelho o nosso projeto de vida. “Ousem, nos dizia o Papa, a santidade”.

Maria Eugênia foi canonizada no dia 03 de junho de 2007. Isto quer dizer que a Igreja reconhece a santidade de Maria Eugênia e a apresenta ao mundo todo como uma pessoa cujo caminho de fé e de vida é um convite para nós todos. Mais uma vez, somos desafiados, desafiadas, a ter a coragem, a audácia, a ousadia de, em nosso tempo e em nossa sociedade, nos tornarmos discípulos e discípulas, seguidores e seguidoras de Jesus.

Santa Maria Eugênia de Jesus, rogai por nós!

Biografia

Santa Maria Eugênia de Jesus

Jacques Fournier
Extraído do Livro : Paris, Carrefour de saints

Nascida em Metz a 25 de agosto 1817, passou sua infância entre a casa natal dos Milleret de Brou e a vasta propriedade de Preisch, na fronteira entre Luxemburgo, Alemanha e França. De uma família incrédula cujo pai, voltariano, é um alto funcionário e a mãe, una excelente educadora, que só pratica um formalismo religioso. Ana Eugênia terá um verdadeiro encontro místico com Jesus Cristo no dia de sua primeira comunhão, no Natal de 1829: «Nunca o esqueci».

Em 1830, seu pai cai na ruína e tem que vender o Castelo de Preisch e mais tarde a casa de Metz. Seus pais se separam; ela vai para Paris com sua mãe que uma epidemia de cólera levará brutalmente em 1832. Uma família amiga rica de Châlons a acolhe. Em sua adolescência de 17 anos, conhecerá o desapego e a solidão no meio da superficialidade que a rodeia: “Vivi uns anos perguntando-me sobre a base e o efeito das crenças que não havia compreendido… Minha ignorância do ensino da Igreja era inconcebível, e eu havia recebido as instruções comuns do catecismo”.(Carta al Pe. Lacordaire, 1841)

Seu pai a leva de volta para Paris. Durante a Quaresma de 1836, encontra a luz ao ouvir o Padre Lacordaire pregar na Catedral de Notre Dame. “Sua palavra despertava em mim uma fé que nada pôde abalar”. “Minha vocação começou em Notre Dame” dirá mais tarde. Apaixona-se pela renovação do cristianismo suscitada por Lammanais, Montalembert e seus amigos.

Entre eles, está o Padre Combalot a quem ouve pregar em São Sulpício em março de 1837. Ana Eugênia se encontrará com ele, pela primeira vez, em Santo Eustáquio. Ele sonhava em fundar uma Congregação dedicada a Nossa Senhora da Assunção, para formar jovens do meio influente da sociedade, maioria sem religião. Ela sonhava com a vocação religiosa. Primeiro duvida em segui-la, depois aceita.

O Pe. Combalot a envia ao Convento da Visitação da Costa de Saint-André (Isère), experiência que deixará nela a marca do espírito e da espiritualidade de São Francisco de Sales. Ela tem as bases de sua pedagogia; rejeita uma educação mundana onde a instrução profana e superficial; quer um cristianismo autêntico e não só de verniz; quer dar às jovens una educação integral à luz de Cristo.

Em abril 1839, se reúnem duas jovens para realizar este projeto, em um apartamento pequeno da rua Férou; em outubro, já serão quatro em um apartamento da rua Vaugirard, estudam teologia, a Sagrada Escritura e as ciências profanas. Kate O’Neill, uma irlandesa, já está com elas, e tomará o nome em religião de Thérèse-Emmanuel; de forte personalidade, acompanhará a Maria Eugênia de Jesus oferecendo sua amizade e sua ajuda durante toda a sua vida.

As irmãs se separam definitivamente do Pe. Combalot em maio do 1841. Sua maneira de dirigir a obra era muito desconcertante e suas relações com o arcebispo de Paris eram difíceis, o que podia por em perigo a obra nascente. Monsenhor Affre lhes oferece o apoio de seu vigário geral, Monsenhor Gros. Foi una libertação. As irmãs voltam aos estudos e fazem sua primeira profissão religiosa no dia 14 de agosto de 1841.

A pobreza em que viviam era grande e a comunidade não aumentava. Isto não impediu Ir. Maria Eugênia de abrir o primeiro colégio na primavera de 1842, no Beco das Vinhas. Mais tarde se instala em Chaillot porque a comunidade cresce e é cada vez mais internacional. Se queixa às vezes dos sacerdotes e dos leigos muito fechados em seus costumes piedosos: “Seu coração não batia por coisa alguma de grande”.

Em outubro de 1838, se encontrará com o Pe. d’Alzon que, em 1845,  fundará os Assuncionistas. Esta grande amizade durará 40 anos. Impregnado das idéias de Lamemnais, cheio de amor a Jesus Cristo e unido à Igreja, ele arrasta a Ana Eugênia; ela o modera. É combativo; ela comedida. As fundações se multiplicam pelo mundo. Roma reconhece esta nova Congregação em 1867. As Constituições ou a Regra da Congregação da Assunção serão aprovadas definitivamente no dia 11 de abril de 1888.

A morte do Pe. d’Alzon em 1880 é presságio do despojamento que ela havia previsto como necessário em 1854: “Deus quer  que tudo caia ao meu redor.” Ir. Thérèse-Emmanuel morrerá no dia 3 de maio de 1888, e sua solidão se torna mais profunda.

O crescimento da Congregação já é uma carga pesada para ela. Entre 1854 e 1895, nascem novas comunidades na França, em seguida, as fundações na Inglaterra, Espanha, em Nova Caledônia, na Itália, na América Latina, nas Filipinas. As viagens se sucedem, as construções, os estudos, as decisões…

Porém sua preocupação constante será sempre a intuição inicial à qual as irmãs têm que responder, fiéis aos apelos do Senhor e sem meio termo. “Na educação, uma filosofia, um caráter, uma paixão. Mas que paixão dar? A paixão da fé, do amor e da realização do Evangelho». Ou ainda: “Seria uma loucura não ser o que se é com a maior plenitude possível”. As religiosas serão professoras educadoras adaptando-se às necessidades que vão apresentando a evolução da vida e da Igreja, sem deixar de lado as observâncias monásticas.

Quando descobre a debilidade da velhice, “um estado no qual só resta o amor” vai-se apagando pouco a pouco. “Só me resta ser boa”. Sua saúde se altera. Vencida por uma paralisia em 1897, só lhe restará o olhar para expressar essa bondade. No dia 10 de março de 1898, se encontra definitivamente com o Cristo ressuscitado, sua única paixão enquanto estava na terra.

Foi proclamada Bem Aventurada em 1975 pelo Papa Paulo VI; e Canonizada em Roma, no dia 3 de junho de 2007, na Festa da Santíssima Trindade, pelo Papa Bento XVI.